Pesquisadora do MackGraphe e doutoranda em Materiais e Nanotecnologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, Julie Anne Braun fala à AEI sobre a conquista do 3º lugar no Prêmio CBIC de Inovação e Sustentabilidade 2026 e os avanços da impermeabilização rumo à industrialização do setor.

A impermeabilização ganhou destaque em um dos mais importantes eventos da construção civil brasileira. O projeto BioPU-Grafeno: Impermeabilização Sustentável de Alta Produtividade conquistou o 3º lugar no Prêmio CBIC de Inovação e Sustentabilidade 2026, reconhecimento que reforça o potencial de inovação do setor e amplia sua visibilidade junto à cadeia da construção.
À frente da iniciativa está Julie Anne Braun, pesquisadora do MackGraphe e doutoranda em Materiais e Nanotecnologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Com mais de dez anos de atuação na engenharia civil, Julie concentra suas pesquisas em materiais aplicados à impermeabilização, nanomateriais e manutenção estrutural de infraestruturas críticas.
O projeto conquistou o terceiro lugar na categoria Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação, tanto na avaliação do júri quanto na votação popular, em uma competição que reuniu iniciativas de diferentes segmentos da construção civil, incluindo soluções voltadas à construção modular, industrializada e off site.
O projeto premiado propõe um sistema de impermeabilização para lajes baseado em uma membrana de poliuretano vegetal nanoestruturada com derivados do grafeno, combinando sustentabilidade, desempenho e potencial de industrialização. A solução busca oferecer maior durabilidade, resistência ao desgaste e confiabilidade, podendo ser aplicada como sistema líquido bicomponente ou evoluir para mantas pré-fabricadas produzidas em ambiente industrial.
A conquista chama atenção pelo desenvolvimento tecnológico e pelo espaço alcançado pela impermeabilização em uma das principais premiações da construção civil brasileira.
Ao comentar o resultado, Julie destacou o significado da premiação para o setor. Para ela, o reconhecimento representa uma conquista coletiva da impermeabilização e contribui para ampliar a visibilidade do segmento dentro da construção civil brasileira.
“Essa é uma conquista do nosso segmento de impermeabilização diante da construção nacional.”
A pesquisadora também ressaltou que o resultado demonstra a crescente relevância do tema no setor. “Foi uma vitória, pois mostramos para a construção nacional que a impermeabilização é necessária e que ela existe”, afirmou.
A seguir, Julie Anne Braun fala sobre os diferenciais do projeto, a relevância desse reconhecimento e os desafios para o futuro da impermeabilização no Brasil.
CONFIRA E ENTREVISTA COMPLETA:
AEI – Como você avalia o reconhecimento da impermeabilização em um dos principais eventos da cadeia da construção civil do país?
Julie Anne Braun – Avalio como um reconhecimento muito relevante, porque a impermeabilização ainda costuma ser percebida tarde demais: muitas vezes apenas no pós-obra, quando surgem infiltrações, manifestações patológicas, retrabalho e prejuízos. No entanto, ela é uma etapa decisiva para o desempenho, a durabilidade e a vida útil das edificações.
Ver um projeto de impermeabilização reconhecido em um dos principais eventos da cadeia da construção civil mostra que o setor começa a enxergar essa área não apenas como uma solução corretiva, mas como um campo estratégico de inovação. A impermeabilização precisa deixar de ser tratada como um item periférico de custo e passar a ser compreendida como engenharia de desempenho: projeto, especificação, controle tecnológico, produtividade, sustentabilidade e proteção do patrimônio construído.
Esse reconhecimento também é importante porque desloca a impermeabilização para o centro da discussão sobre industrialização da construção. Se queremos obras mais rápidas, mais sustentáveis e mais previsíveis, precisamos também de sistemas de proteção mais controláveis, mais duráveis e menos dependentes da variabilidade do campo.
AEI – Na sua opinião, quais foram os principais diferenciais técnicos e sustentáveis do projeto premiado? O que fez essa iniciativa se destacar em meio a outros projetos de construção?
Julie Anne Braun – O grande diferencial técnico do BioPU-Grafeno está na ideia de substituir parte da lógica tradicional de reforços macroscópicos por uma lógica de reforço em nanoescala. Ou seja, em vez de depender apenas de telas, estruturantes ou múltiplas etapas de aplicação em campo, o projeto utiliza derivados de grafeno dispersos na matriz de poliuretano vegetal para melhorar propriedades críticas da membrana, como resistência à tração, alongamento, resistência ao desgaste e barreira à passagem de água.
Tradicionalmente, muitas membranas líquidas são aplicadas in loco, com forte dependência da mão de obra, das condições ambientais, do controle de espessura, do tempo de cura e da regularidade da aplicação. O BioPU-Grafeno abre uma rota diferente: a mesma formulação nanoestruturada pode ser processada como membrana pré-fabricada, curada em fábrica, com controle de espessura, controle de cura, controle de qualidade e desempenho mais padronizado.
Isso aumenta a produtividade no campo, reduz a chance de erro de aplicação, diminui resíduos e torna a instalação mais previsível. Em vez de transportar para a obra toda a complexidade da formulação, da cura e da espessura, parte desse controle passa a acontecer em ambiente fabril.
Por isso o projeto se destacou mesmo em meio a propostas de construção off site e modular. Ele não concorre com a industrialização da construção; ele se integra a ela. Uma edificação industrializada, modular ou pré-fabricada também precisa de proteção contra água, estanqueidade e durabilidade. A proposta do BioPU-Grafeno é justamente fazer com que a impermeabilização também entre nessa lógica industrializada: mais controle, mais repetibilidade, menos improviso e maior potencial de escala.
Do ponto de vista sustentável, o projeto também se diferencia pela substituição do poliol fóssil por uma rota vegetal baseada no óleo de mamona, com potencial redução de carbono incorporado e menor dependência de insumos petroquímicos internacionais. É uma sustentabilidade técnica, não apenas discursiva: menor impacto ambiental, maior desempenho e maior racionalização do processo construtivo.
AEI – Você comentou que essa conquista contribui para ampliar a visibilidade do setor. Na prática, que avanços esse tipo de reconhecimento pode trazer para a área de impermeabilização nos próximos anos?
Julie Anne Braun – Na prática, esse reconhecimento pode ajudar a reposicionar a impermeabilização dentro da cadeia da construção civil. Ele mostra que a área não deve ser vista apenas como uma etapa executiva, mas como uma disciplina técnica capaz de gerar inovação, produtividade, redução de custos indiretos, durabilidade e sustentabilidade.
Esse tipo de visibilidade pode estimular mais investimento em pesquisa aplicada, novos materiais, ensaios de desempenho, protocolos de controle de qualidade, normalização técnica e capacitação profissional. Também pode aproximar fabricantes, projetistas, aplicadores, construtoras, incorporadoras, universidades e centros de pesquisa.
Nos próximos anos, acredito que a impermeabilização tende a caminhar para sistemas mais industrializados, com menor variabilidade de aplicação e maior previsibilidade de desempenho. O reconhecimento do BioPU-Grafeno ajuda a abrir essa discussão: sair de uma cultura muito dependente da execução artesanal em campo e avançar para sistemas com controle de processo, controle de cura, controle de espessura e critérios objetivos de desempenho.
Outro avanço importante é a valorização da durabilidade. Uma solução de impermeabilização não deve ser avaliada apenas pelo custo inicial, mas pelo custo ao longo da vida útil da edificação. Quando o sistema reduz retrabalho, paralisações, falhas e manutenção, ele gera valor para toda a cadeia: indústria, especificação, obra, uso e manutenção.
AEI – Qual mensagem você deixa aos colegas da AEI e aos profissionais que contribuíram para o desenvolvimento do projeto? E qual a importância da integração promovida pela Associação para o fortalecimento e evolução do mercado de impermeabilização?
Julie Anne Braun – Gostaria de deixar uma mensagem de agradecimento aos colegas da AEI e a todos os profissionais que atuam para elevar o nível técnico da impermeabilização no Brasil. Nenhuma inovação relevante nasce isolada. Ela depende da soma entre conhecimento científico, experiência industrial, vivência de obra, especificação técnica, aplicação qualificada e diálogo permanente com o mercado.
O desenvolvimento do BioPU-Grafeno só foi possível porque houve essa integração. O projeto contou com a parceria estratégica da Purcom Química, que apoiou desde o início os desafios de formulação, inclusive com atividades no laboratório da fábrica em Barueri, sob orientação do Sr. Gerson Parreira, químico, engenheiro químico e sócio-diretor da empresa. Também contou com o apoio do MackGraphe, de sua direção e de uma equipe técnica comprometida em transformar pesquisa de fronteira em uma solução com potencial real de aplicação.
A AEI tem um papel essencial porque promove justamente esse ambiente de aproximação entre os agentes do setor. Quando fabricantes, projetistas, consultores, aplicadores, pesquisadores e empresas se encontram, o mercado amadurece. A discussão deixa de ser apenas sobre produto e passa a ser sobre sistema, desempenho, responsabilidade técnica e evolução da cadeia.
A impermeabilização brasileira tem muito conhecimento acumulado, mas precisa cada vez mais transformar esse conhecimento em inovação, normalização, qualidade de execução e soluções escaláveis. A integração promovida pela Associação é fundamental para isso.
“O caminho é menos improviso e mais engenharia; menos correção de falhas e mais prevenção; menos fragmentação e mais cooperação técnica.”

Sobre o projeto
O BioPU-Grafeno desenvolve uma nova geração de sistemas impermeabilizantes a partir da combinação entre poliuretano vegetal derivado do óleo de mamona e nanotecnologia baseada em derivados do grafeno. A proposta busca aumentar o desempenho das membranas impermeabilizantes e criar caminhos para a industrialização dos processos, com maior controle de qualidade, produtividade e sustentabilidade.


